Há muitas formas de reinterpretar um automóvel com quase sete décadas de história. No caso do FIAT 500, o desafio é ainda maior: alterar demasiado significa perder parte da simplicidade que o tornou num ícone; alterar de menos pode tornar difícil justificar uma abordagem verdadeiramente moderna.
É precisamente nesse equilíbrio que surge o Scattante, uma nova interpretação do FIAT 500 clássico desenvolvida pela britânica La Cinquecento.
Apresentado publicamente no evento Tutto Bene 2026, o projeto nasceu a partir de um FIAT 500 de 1973 da família de Max Kindersley, fundador da empresa, que permanecera cerca de 25 anos parado num celeiro. O que deveria ser um restauro acabou por evoluir para algo mais ambicioso: imaginar como poderia ser o pequeno 500 se fosse reconstruído hoje, mantendo os elementos que definem a sua personalidade.
Talvez a decisão mais importante esteja precisamente na traseira.
Em vez de uma conversão elétrica ou de uma mecânica completamente diferente, o Scattante mantém-se fiel à arquitetura do FIAT 500 clássico: motor bicilíndrico traseiro, refrigerado a ar.
A unidade de 800 cc, derivada do FIAT 126, foi profundamente revista e conta com um sistema de ignição Twin Spark, com duas velas por cilindro.
A intervenção não ficou pelo motor. Suspensão, travagem, direção, sistema de refrigeração e instalação elétrica foram revistos ou redesenhados, procurando tornar a condução mais precisa e eficaz sem eliminar o carácter mecânico do original.
O desenho foi desenvolvido em colaboração com o estúdio italiano BorromeodeSilva, partindo das proporções inconfundíveis do 500 e acrescentando uma presença bastante mais musculada.
As cavas das rodas foram alargadas, surgiram novas saias laterais e a postura tornou-se mais larga e desportiva. Na frente, os faróis suplementares introduzem uma clara inspiração no mundo dos ralis.
Apesar das alterações, continua a não haver dúvidas sobre o automóvel que está na origem do projeto. O Scattante não tenta esconder que é um FIAT 500 — apenas apresenta uma interpretação muito diferente daquela que saiu das linhas de produção italianas há várias décadas.
Projetos deste género levantam inevitavelmente uma questão entre os apaixonados pelos automóveis históricos: um FIAT 500 deve ser preservado exatamente como saiu de fábrica ou existe espaço para interpretações contemporâneas?
Para quem valoriza a originalidade, um exemplar conservado ou corretamente restaurado terá sempre um significado próprio. Mas a história do 500 também foi construída através de preparadores, carroçadores e oficinas que modificaram o modelo para estrada e competição.
Abarth e Giannini são provavelmente os exemplos mais conhecidos de uma cultura de preparação que acompanha o pequeno FIAT praticamente desde o seu nascimento.
É nesse contexto que o Scattante encontra o seu espaço. Não pretende substituir o original, mas reinterpretar, com soluções atuais, uma fórmula criada nos anos 50.
O exemplar apresentado em 2026 é o primeiro protótipo mostrado ao público. A La Cinquecento prevê produzir apenas poucos exemplares por ano, com possibilidade de personalização de acordo com as preferências de cada proprietário.
Para já, o preço e a potência não foram divulgados, deixando ainda alguns dos números mais aguardados por conhecer.
Quase 70 anos depois do nascimento da Nuova 500, continuam a surgir empresas, designers e engenheiros interessados em imaginar novas formas de conduzir o pequeno automóvel concebido por Dante Giacosa.
O Scattante pode dividir opiniões — como praticamente todos os restomods — mas demonstra que o FIAT 500 continua a ter capacidade para inspirar novos projetos quase sete décadas depois do seu aparecimento.
E talvez essa seja uma das melhores provas da importância que este pequeno automóvel conquistou na história do automóvel.
O curioso “Fiat 500” sobre carris: quando a FIAT chegou aos caminhos de ferro italianos
Quando se fala na história da FIAT, é natural pensar em automóveis icónicos como o Fiat 500, o 600, o 850 ou o 124. No entanto, poucos entusiastas sabem que a marca de Turim também deixou a sua marca no universo ferroviário, através de um pequeno e invulgar veículo destinado à inspeção e manutenção das linhas da Ferrovie dello Stato (FS), os caminhos de ferro italianos.
Desenvolvido durante a década de 1960, este veículo foi concebido para facilitar o trabalho das equipas de manutenção, permitindo deslocações rápidas ao longo da rede ferroviária. Compacto, económico e de manutenção simples, tornou-se uma ferramenta extremamente útil para os serviços técnicos da FS, tendo sido produzidas mais de 180 unidades.
Embora seja frequentemente designado por “Fiat 500 Railcar”, esta designação pode induzir em erro. O veículo não era um Fiat 500 adaptado para circular sobre carris. Na realidade, utilizava uma carroçaria inspirada no Fiat 850T, facilmente reconhecível pela sua frente característica, enquanto a motorização era um motor bicilíndrico derivado da Fiat 500 Giardiniera, devidamente adaptado para utilização ferroviária.
A escolha deste conjunto mecânico não foi por acaso. O motor do Fiat 500 Giardiniera era conhecido pela sua simplicidade, robustez e baixos custos de manutenção, características fundamentais para um veículo que precisava de operar diariamente em diferentes pontos da rede ferroviária italiana.
Ao longo da sua vida operacional, estes pequenos veículos conheceram diversas evoluções estéticas. Existiram versões com e sem grelha frontal, diferentes esquemas de pintura e várias gerações de logótipos da Ferrovie dello Stato, refletindo a evolução da imagem institucional da empresa ao longo das décadas.
Apesar de nunca terem atingido a notoriedade dos automóveis da marca, estes veículos representam um capítulo muito interessante da história da FIAT e demonstram a capacidade da empresa em aplicar a sua experiência técnica muito para além da indústria automóvel.
Recentemente, este curioso veículo voltou a despertar o interesse dos apaixonados pela marca graças à sua reprodução pela Rivarossi em escala H0. O modelo apresenta um elevado nível de detalhe e presta homenagem a um dos mais peculiares capítulos da história da engenharia italiana.
Para os entusiastas do Fiat 500, trata-se de uma curiosidade fascinante: um veículo ferroviário que, embora nunca tenha sido verdadeiramente um Fiat 500 sobre carris, transportava consigo o espírito e a mecânica de um dos automóveis mais emblemáticos da história da FIAT.
Fiat 500 na Antártida: A Expedição à Scott Base
Ao longo das décadas, o Fiat 500 não foi apenas um símbolo de mobilidade urbana, mas também se tornou numa verdadeira lenda em condições extremas, adaptando-se a ambientes onde muitos carros modernos não resistiriam. A sua robustez e engenhosidade chamaram atenção, mesmo em algumas das regiões mais isoladas e inóspitas do planeta. Um dos exemplos mais notáveis da resistência e capacidade de adaptação do modelo ocorreu num dos locais mais desafiadores do mundo: a Base Scott, na Antártida. Neste cenário, o Fiat 500 foi desafiado a enfrentar temperaturas extremas e terrenos congelados, levando a lenda do modelo a novos limites.
A Scott Base é uma estação de pesquisa científica na Antártida, localizada num dos lugares mais inóspitos do planeta, onde se realizam estudos sobre geologia, climatologia e os ecossistemas da região polar. O Fiat 500 foi enviado em 1960 com o propósito de ser utilizado como transporte nas curtas distâncias ao redor da base, ajudando os cientistas nas suas deslocações diárias e nas suas tarefas de investigação. Num ambiente onde a mobilidade é frequentemente limitada devido ao terreno gelado e às temperaturas severamente baixas, o Fiat 500 deveria ser uma solução prática e eficiente.
Para garantir que o Fiat 500 fosse capaz de operar nas condições extremas da Antártida, o pequeno carro sofreu algumas modificações, tornando-o mais resistente ao clima polar. O modelo foi equipado com pneus adaptados, especialmente projetados para permitir a mobilidade em terrenos cobertos por neve e gelo. Além disso, o habitáculo foi isolado, para proteger os ocupantes das temperaturas glaciais, garantindo um mínimo de conforto e segurança durante as deslocações.
A expedição enfrentou inúmeros desafios. O Fiat 500 teve de enfrentar temperaturas negativas severas, ventos gelados e terrenos difíceis. No entanto, o pequeno carro superou as expectativas, demonstrando uma resiliência impressionante. Ele foi capaz de operar de forma eficaz, transportando cientistas e materiais essenciais para a investigação científica na estação. Surpreendentemente, o Fiat 500 não só resistiu às condições extremas da Antártida, como também desempenhou um papel crucial nas atividades diárias da Scott Base, provando que, apesar de ser um carro urbano simples, o Fiat 500 tinha uma capacidade de adaptação extraordinária.
Após a expedição, o Fiat 500 utilizado na Scott Base foi preservado e exposto em vários museus, tornando-se um símbolo da força, resistência e versatilidade do modelo. A sua história passou a ser um exemplo emblemático da capacidade do Fiat 500 de enfrentar desafios inesperados e operar em condições que pareciam inimagináveis para um carro tão pequeno. Este feito na Antártida não só ajudou a consolidar a imagem do Fiat 500 como um veículo robusto e adaptável, mas também destacou a sua versatilidade em contextos tão variados quanto a cidade ou ambientes extremos.
A história do Fiat 500 na Scott Base é, sem dúvida, um testemunho da resiliência e versatilidade deste carro clássico. Originalmente concebido para ser um veículo urbano acessível e simples, o Fiat 500 provou ser muito mais do que isso ao demonstrar sua capacidade de operar em um dos locais mais difíceis do planeta. Esta expedição à Antártida exemplifica a incrível adaptabilidade do modelo, lembrando-nos de que, com as adaptações certas, até o carro mais simples pode superar grandes desafios e fazer a diferença em contextos extremos.
O Fiat 500 continua a ser um ícone global, não só pela sua história nas cidades, mas também pelas aventuras improváveis e impressionantes, como esta, na Antártida.
Entre os muitos momentos marcantes do 2.º Encontro Nacional FIAT 500 Portugal, há histórias que merecem ser eternizadas — e a do Antonio Zamunaro é, sem dúvida, uma delas.
Diretamente de Vicenza, no norte de Itália, Antonio percorreu cerca de 2400 quilómetros, na companhia da sua esposa, ao volante do seu FIAT 500 Abarth, para estar presente na Curia. Uma viagem impressionante, não apenas pela distância, mas pela demonstração de paixão, compromisso e espírito de comunidade.
O Antonio já tinha manifestado a vontade de participar no nosso 1º Encontro Nacional, em 2024, mas questões pessoais impediram-no de concretizar esse desejo. Este ano, fez questão de cumprir a promessa e fê-lo com um gesto que nos impressionou a todos: viajou no seu próprio FIAT 500 clássico, atravessando países e somando quase 800 km por dia, entre terça-feira, 13, e sexta-feira, 16 de maio, até chegar a Barcelos.
Este testemunho é muito mais do que um simples relato de uma viagem longa. É a prova viva de que a verdadeira paixão move montanhas, atravessa fronteiras e supera qualquer obstáculo. É a confirmação de que o FIAT 500 é muito mais do que um carro: é um elo que une pessoas, histórias e emoções.
A presença do Antonio e da sua esposa foi uma honra para todos nós. E o som do seu FIAT 500 Abarth a chegar à Curia ficará para sempre na memória de quem teve o privilégio de o ouvir e de o ver entrar, com orgulho, no nosso Encontro Nacional.
Obrigado, Antonio, por representares tão bem o espírito quinhentista. Obrigado por nos mostrares que, quando a paixão é verdadeira, nenhuma distância é demasiado longa.
"Realizar uma viagem aos Picos da Europa no meu Fiat 500R clássico era mais que um desejo – era um sonho de longa data, alimentado pela ideia de explorar uma das regiões mais belas de Espanha ao volante de um carro tão especial. Com as datas finalmente definidas – 12 a 15 de setembro – embarcámos naquilo que viria a ser uma aventura inesquecível.
Partimos de Vila do Conde logo ao amanhecer, pelas 6h30, sentindo o motor icónico do 500 R vibrar enquanto seguíamos pelas estradas. Atravessámos a A7 e a A52 até Benavente, onde chegámos por volta das 13h, fazendo uma pausa para recarregar energias com um bom almoço. De volta à estrada, a A52 levou-nos até León às 16h30, e daí seguimos pela exigente A66 rumo a Oviedo. Este percurso de 119 km, serpenteando entre montanhas e vales, foi um verdadeiro teste à resistência e alma do pequeno Fiat, que, com os seus modestos cavalos de potência, mostrou mais uma vez o seu caráter. Cada quilómetro percorrido reforçava o prazer de conduzir um clássico.
Por volta das 19h30, após evitar o centro de Oviedo, desviámo-nos pela estrada N-634 até Cangas de Onís, e de lá seguimos para o nosso acolhedor refúgio em Covadonga. Ficámos na Casa Asprón, uma casa centenária com alma e conforto que nos transportou a outros tempos. Os anfitriões, de uma simpatia única, acolheram-nos como velhos amigos, e os pequenos-almoços servidos ali foram nada menos que fabulosos, perfeitos para começar cada dia com energia.
No segundo dia, pela manhã, mergulhámos na história e na espiritualidade da região, visitando a majestosa Basílica de Covadonga e a Capela da Santa Cova, locais que, com a sua beleza deslumbrante, nos deixaram sem palavras. A imponência da Basílica, rodeada pela grandiosidade das montanhas, é de cortar a respiração. À tarde, apesar de não podermos subir aos Lagos de Covadonga no nosso 500 (o acesso é restrito a veículos autorizados), decidimos fazer a viagem nos táxis coletivos. Lá em cima, apesar de o tempo estar instável, tivemos a sorte de escapar ao nevoeiro, o que nos permitiu ver claramente os lagos e percorrer trilhos que ofereciam vistas deslumbrantes sobre o Parque Nacional. A paisagem dos Picos da Europa, com as suas montanhas imponentes e lagos cristalinos, parece saído de um postal – foi impossível não parar para tirar fotografias e saborear cada momento.
No terceiro dia, depois de mais um pequeno-almoço memorável, descemos até Cangas de Onís, onde a famosa Ponte Romana, com a sua Cruz da Vitória, nos esperava. Este símbolo das Astúrias, suspenso sobre o rio, evoca séculos de história. Visitámos também a Igreja de Santa Cruz e a Igreja de Santa Maria, completando a nossa exploração cultural da região.
Ao final da manhã, demos início ao regresso, mas não sem antes fazer uma paragem em Gijón, uma cidade à beira-mar cheia de charme. O Fiat 500 R, com o seu espírito indomável, continuava a percorrer as estradas com a mesma garra, enchendo-nos de orgulho por estarmos a viajar num clássico que, apesar das suas limitações, nos proporcionava uma experiência tão autêntica e gratificante. No regresso, fizemos ainda paragens em Oviedo, León, no belíssimo Lago de Sanábria e em Chaves, onde jantámos. Chegámos a casa em Vila do Conde já tarde, por volta das 00h45, após percorrermos 1.352 km ao longo de quatro dias.
Esta viagem não foi apenas uma aventura pelas paisagens épicas dos Picos da Europa – foi também uma celebração da simplicidade e do prazer de conduzir um carro clássico como o Fiat 500. Cada curva da estrada, cada subida desafiante, reforçou o sentimento de que viajar num ícone automóvel como este torna qualquer percurso mais especial. E, sem dúvida, esta não será a última – o espírito de aventura já nos faz sonhar com a próxima viagem, ainda mais arrojada.
Para quem ama a estrada, a natureza e a história, os Picos da Europa são um destino obrigatório, e fazê-lo ao volante de um clássico como o Fiat 500 torna a experiência verdadeiramente inesquecível."